Me deitei e essa cama me pareceu tão grande. E esse quarto, essa casa, esse mundo inteiro me pareceu tão enorme… E eu sou tão pequena. Foi como se tudo tentasse me mostrar o quão ínfima sou quando comparada ao restante. Os travesseiros e lençóis estão espalhados pelo quarto, o maço de cigarros está vazio, a certeza de que nos perdemos novamente se materializa. E dessa vez já não sei como tentar. Então eu enlouqueço porque sempre destruo tudo aquilo que toco e é como se a desgraça fosse a única que ainda insiste em me acompanhar. Todo o resto foi embora e eu choro sozinha no escuro porque você nunca quis as minhas lágrimas, nunca soube lidar com elas; mas as causa. E eu me odeio porque digo que desisto mas permaneço esperando e esperando por um sinal; é como se uma só palavra tua refizesse tudo e me fizesse aguentar mais uma noite como essa, que parece ser eterna… As horas não passam enquanto seus olhos me fitam na fotografia."
- Os morangos estão morrendo. - Ela disse. E o rosto tão triste, tão devastado e verdadeiramente sofrido pelos morangos que eu fingi não entender.
- O quê?
- Os morangos, Carlos, estão morrendo.
E o rosto comido por dores inexistentes, tpm fora de época, pílulas e cigarros e amores acabados. E tudo, tudo era um motivo triste.
Eu fui sensível o suficiente para entender e não debochar de sua dor. Frase proibida, escrita à lápis no nosso manual-de-vida-básica: “Nunca dizer: Essas coisas acontecem, é natural” ou “Bobagem, não fique assim”. Auto-ajuda e mantras também ficavam cuidadosamente do lado de fora de casa e sofríamos de-li-be-ra-da-men-te. Assim, dessa forma esticada e sem pressa porque “Há muito sofrimento no mundo, Carlos. E nosso papel é chorar por aqueles que não podem.”
- Podemos cantar uma música fúnebre ou então rezar alguma prece. O que você acha?
- Qual música?
- Eu não sei. Moon River me lembra você.
- Strawberry fields forever faz mais sentido.
- É verdade. Mas eu só sei o refrão (…) Nós também poderíamos entrar e ouvir Frank Sinatra. Tomar vinho e fumar. Conversar sobre o mundo…
- Mundo? É muito vago, Carlos. Mas eu gostaria de chá.
- Qual chá?
- Cidra. Porque me acalma.
E ela foi na frente. Pálida e fraca, sustentando dores universais em seus ombros pequenos. Cantarolando Nico e entrando no segundo round com suas franjas teimosas e loiras.
Trazia o colo e as mãos ensanguentadas. Os pingos rubis marcando seus passos pela calçada cinza de negrito. E essa visão foi a minha profecia diante de seus olhos fundos de noites insones: esses seriam os primeiros de todos os morangos que iriam morrer. Uma cadeia vertiginosa que nunca estancaria.
Assim como Clara não escapava de sangrar todo mês.
- Você está muito bonita, Clara.
- E cheirando morango, Carlos.
- Claro. E cheirando morangos silvestres.
"(via thesameday)
Me empresta teu peito que o meu já não cabe mais nada. Sentir é um martírio, amor. Eu sou pequena demais. Pra que esse tamanho de destino? Porque esse tanto de coisas que precisam ser ditas?
Porque nunca tem silêncio nessa casa ou porque o carro lá embaixo não é sinal de libertação? Como é que eu…
É categoricamente imprescindível que você saiba e não se esqueça nunca que eu não fui sempre assim: cínica, sarcastiga e egoísta. Neurótica aconteceu no “entre”, durante tudo que eu era e tudo que eu me tornei.
Aí eu rio. Tiro sarro com juventude burra, garotas iludidas, Caio Fernando Abreu e…




